A revolução liberal do Porto (1820) e Tavira

Ilustração de Roque Gameiro (1917) retratando a Revolução Liberal do Porto (1820)

Foi na cidade invicta que teve lugar precisamente no dia de hoje há 200 anos que eclodiu a revolução liberal composta por militares que deu início ao Vintismo, num Portugal cansado com a ausência do Rei no Brasil e de ser um protectorado (regido por William Beresford, lugar-tenente de Wellington) britânico desde as invasões francesas. Três anos antes, tinha tido lugar uma conspiração em Lisboa falhada após denúncias, sob a influência da loja maçónica do Grande Oriente Lusitano , dirigida pelo general Gomes Freire de Andrade, que havia sido executado.

Como consequência do golpe, foi instituída um Junta Provisional, que se encarregaria de convocar cortes em Lisboa, exigindo entre outras medidas o regresso da família real no exílio e a elaboração de uma constituição, que haveria de ser aprovada em 1822. Este pequeno episódio de governo liberal seria abruptamente terminado no ano seguinte, com os golpes da Vilafrancada e Abrilada, em ambos tendo como rosto principal o Infante D. Miguel.

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A visita do Bispo à igreja da Conceição a 1 de Julho de 1712

Nas igrejas cristãs, o Crisma ou Confirmação é um dos sete sacramentos para além do baptismo, primeira comunhão e matrimónio que todo o cristão praticante deve conseguir durante a sua vida. Na Igreja Católica, esta cerimónia é presidida por um bispo e consiste numa unção com azeite sobre o fiel aplicada por ele. Menos frequentemente, porque nem sempre o Bispo podia visitar todas as paróquias da sua diocese, estes acontecimentos aparecem registados nos livros paroquiais. Trata-se de um rol de crismados. No caso da paróquia da Conceição, são dois: um em 1690 e outra em 1 de Julho de 1712, a que este artigo vai fazer referência.

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Entre que mãos onde andou a saltar o “Mato da Ordem”

O “Mato da Ordem”, juntamente com a Arrancada, em mapa da CM Tavira (https://mapas.cm-tavira.pt/site/app#home)

Inscrição do Mappa das Terras do Almargem da autoria de Sande de Vasconcelos (1792?) com a inscrição “Conde de Sandomil”

Já aqui fizémos referência ao “Mato da Ordem“, que foi criado como um foro da família Corte-Real cerca de 1485 sob o desígnio da Ordem de Santiago. O que é estranho é que chegamos a 1885 e Estácio da Veiga(1), proprietário da Arrancada, fazenda contígua com o Mato da Ordem, relata que a propriedade vizinha foi vendida pela Casa de Palmela a um tavirense de nome José Maria Parreira.

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  • (1) segundo o que relata Anica na Monografia de Cabanas (2011)

500 anos da mui nobre e leal cidade de Tavira

 
Armas da cidade de Tavira (no folio 10), segundo o Tesouro da Nobreza por Fernando Coelho (c. 1675)Há 500 anos, precisamente neste dia, sua majestade o venturoso rei D. Manuel I erigiu a cidade de Tavira à condição de cidade tornando-se a primeira cidade do Algarve, em domínio português, a ser alvo desse galardão (Silves já o era por ser na altura sede da diocese do Algarve).

Várias razões estiveram por detrás da decisão régia, como a posição de Tavira como cabeça na estratégia militar da nação para a costa marroquina, ponto de comércio com o mediterrâneo, e a sua população, onde viveriam na altura três mil vizinhos, segundo Frei João de São José na sua Coreografia do Reino do Algarve, que para mais diz no parágrafo de abertura sobre Tavira, no capítulo dedicado a cada uma das urbes da região:

A cidade de Tavira, sem algũa dúvida, é, ao presente, e foi sempre a principal de todo o reino do Algarve, não só na grandeza da povoação e dotes que a natureza repartiu com o solo do seu sítio, mas também na nobreza dos moradores dela, que são as três excelências que fazem ũa terra nobre e que com rezão se pode gloriar delas.

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A evolução da Costa de Tavira à foz do Guadiana do séc. XVIII ao séc. XX .

Já foi tema neste local a influência que a configuração da costa tem no desenvolvimento social e político das populações. O que não foi referido é que esta costa é um palco mutável e dinâmico, que se vai modificando de uma forma perceptível  no espaço de duração de uma vida humana. Alterações bruscas poderão ter lugar como de certeza tiveram como os grandes fenómenos de envergadura sísmica, mas no geral as alterações são graduais. Estamos numa costa que é dominada em grande parte por dois grandes pontos de dinâmica costeira como o são a Ria Formosa e a foz do Guadiana. O input de sedimentos e as correntes dominantes da ondulação costeiras são os dois principais “cozinheiros”. Relativamente a poder fazer a inventariação temporal esta está altamente dependente da perícia dos cartógrafos. E como estes, a precisão. Neste ponto, penso que o talento do engenheiro militar José Sande Vasconcelos permite balizar um antes e depois neste aspecto. O militar não era perfeito e o grau de sofisticação tem que ser lido de acordo com a sua época. Mas no geral, o seu traço permite usar as suas cartas como o princípio da galeria que vamos apresentar de seguida.

É possível ver gradualmente como o cordão dunar foi evoluindo do final do séc. XVIII até 100 anos depois, começando com o mapa 1. Este encontrava-se ligeiramente a leste do forte de S. João, enquanto Cacela estava exposta ao mar aberto. Ao longo de 100 anos, o cordão dunar foi-se prolongando contínuamente até atingir Cacela. Por outro lado, é possível verificar a evolução da Foz do Guadiana, enquanto no mapa de Baptista Lopes vemos um conjunto de vários bancos de areia na foz, vê-se no mapa de Filipe Folque estes bancos já não estão presentes. Interesse é ver no mapa 1 Sande Vasconcelos aponta umas formações arenosas a leste da barra a que chama “Esparchal”. Serão areias que mais tarde serão em quantidade suficiente para ficarem permanentemente fora de água ? De reparar que a configuração desta barra terá sem dúvida afectado a decisão quando a esquadra comandada pelo Duque da Terceira partiu do Porto em Junho de 1833 escolheu desembarcar e atacar a Bateria da Torre, terá sido quase de certeza provocada por ser o ponto mais próximo da então capital do Reino do Algarve que permitia o desembarque em terra firme, para além da embocadura da entrada para o “Rio de Tavira” estar concerteza bem defendida pelo forte de S. João, de forma que o duque da Terceira optou por uma invasão que permitia o desembarque na “rectaguarda” do forte. O forte não foi atacado, pois as forças liberais puseram-se logo em direcção de Tavira, que tomaram sem quase qualquer resistência.

Seria neste cordão dunar que iria ser erigida a armação dos mares da Abóbora, por volta de 1840, com certeza na embocadura do local onde se situaria na altura a barra, sendo o local mais óbvio onde colocar os apetrechos da armação. O mais possível num local a meio termo entre o porto de Tavira e o mar aberto. Nesse local ficariam alojados os “companheiros” (de “companha”) nos meses da faina do atum (de Março a Setembro). Em Cacela foi construída uma fábrica de tijolos que deu o nome à zona conhecida como “Fábrica”. Muito provavelmente foi construída com o intuito de manufacturar material de construção para a construção das referidas habitações da armação. Por outro lado, a sua localização, na Ria, a salvo das investidas do mar, permitiria transportar os tijolos por mar até outros locais.

Os Vaz Velho – Parte V : As origens catalãs da esposa do cozinheiro

Brasão da Catalunha (fonte: Wikipedia)

No primeiro artigo desta série dedicada aos Vaz Velho, e quem tivesse atentado na árvore Genealógica desse artigo, deve ter reparado no nome da esposa de Manuel Vaz Velho, o cozinheiro real, que fundou esta casa tinha como esposa Rosa Maria Baram y Columé. O nome soa a castelhano, mas na realidade é catalão, sendo esta senhora natural da paróquia de Santa Maria del Mar, em Barcelona.
Ora sabe-se que Manuel esteve na Catalunha porque começou por ser sumiller (isto é, copeiro) do Conde do Redondo quando este esteve em Barcelona, antes do início da Guerra de Sucessão Espanhola (1701-14). Para ser breve, pode-se dizer que esta guerra surgiu de um impasse na sucessão na coroa espanhola fruto da morte do último Habsburgo  espanhol, Carlos II, sem descendentes directos: e formaram-se dois partidos: um que apoiava Filipe De Bourbon, neto de Luís XIV de França e outro, em que Portugal apoiou, apoiando o Habsburgo austríaco, o arquiduque Carlos. Em Espanha diferentes regiões apoiavam um dos partidos: em Castela  os Bourbon e na Catalunha os Habsburgo. Foi exactamente na Catalunha que Manuel Vaz Velho se encontraria na corte do arquiduque austríaco Carlos, tendo como esposa  a tal senhora catalã. Após diferentes voltes-face, a guerra terminou em 1714 com o tratado de Utreque e o reconhecimento do pretendente Bourbon como rei de Espanha como Filipe V. Uma das filhas do cozinheiro, Maria Francisca casou-se com um militar catalão, do partido apoiante dos austríacos, exilado em Faro, Bento Romanguer, da qual ainda hoje existe descendência em Portugal, nomeadamente o autor do blogue que serve de fonte para este artigo.

Fonte: Artigo de João Paulo Esquivel em Um Austracista Catalão exilado em Portugal relembrado por um seu descendente (1714/2014)

O Palacete dos Vaz Velho

OS “VAZ VELHO” DE TAVIRA (Parte IV)

O Solar a receber obras de conversão (2019)
O palacete na actualidade (2019), já em obras

O palacete dos “Vaz Velho” encontra-se actualmente em fase de remodelação para o vir a converter numa unidade hoteleira. Neste texto far-se-à menção à história deste palacete/solar e os diferentes proprietários que foi tendo ao longo da sua história, pelos menos aqueles que são conhecidos.

O palacete foi executado na vertente de uma encosta do vale do rio, sobre um socalco. Permitindo uma vista desafogada sobre o vale, terá sido construído como forma de poder manifestar o novo status social da família, sobranceiro sob a cidade e o rio, e ao mesmo tempo permitir vigiar as suas posses, a Serra, a Quinta e o Horto da Belafria. O palacete era um típico solar nobre da época da segunta metade de setecentos. No caso deste solar, ele junta duas tendências arquitectónicas: o telhado de tesouro típico da região com o estilo pombalino inspirado no neoclássico: dois pisos com janelas altas com varandim, todas com as mesmas dimensões e igualmente espaçadas ao longo da fachada, reflexo das formas geométricas concretizadas na ortoganalidade impressa na fachada.

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As vinte e não sei quantas Igrejas de Tavira

Traseiras da Igreja de S. Maria do Castelo, a matriz. Foto: Wikipedia.

Aqui fica um mapa das 20 igrejas de Tavira [1]. Alguém levantou a questão de quantas são afinal !? Vinte e uma são referidas por Anica e Damião de Vasconcelos e todas se situam dentro do perímetro urbano. Rui Salvé Rainha [2] refere trinta e seis, contando com as igrejas da periferia (eg S. Margarida, N.S. da Saúde) e as que já existiram. Eu fui ao mapa e de memória contei vinte igrejas. Na minha óptica, convento e sua igreja associada contam como um corpo único: há quem as conte como duas – igreja e convento – deste ponto de vista, N.S. do Carmo e S. Francisco contam como dois templos separados, ficando assim com vinte e duas. Não contabilizei as igrejas da periferia: Santa Margarida, Capelinha, N.S. da Saúde e São Domingos (já demolida). Assim ficaríamos com vinte e seis. Mas não concordo com este critério, porque assim teríamos de contar com a igreja de Santa Luzia, que está a uma distância do interior da cidade inferior à da ermida de N.S. da Saúde. O critério mais correcto será então contar apenas com as igrejas situadas nas duas freguesias históricas da cidade. Portanto, assim e apenas tendo em conta as que estão de pé (excluindo S. Domingos) temos vinte e três. Cada um agora diga de sua justiça.

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[1] V.a.. 2010. Tavira – cidade das Igrejas. Edited by de Tavira, Município. .
[2] Salvé Rainha, Rui and Délio Lopes. 2013. Procissões, romarias e tradições de Tavira. Edited by Author. .

Os Vaz Velho de Tavira (parte III)

António José Vaz Velho (1771 – 1860), autarca, cosmógrafo e heraldista

Brasão de António José Vaz Velho

Já aqui se falou dos Vaz Velho, que têm como ancestral Manuel Vaz Velho, que foi cozinheiro da corte de João V, o que lhe permitiu ganhar fama e fortuna, para mais tarde ascender socialmente, confiando os seus ganhos à sua descendência. Para além do seu filho Manuel José, que foi Senhor da Serra e erigiu o palacete da Bela Fria há a acrescentar o seu neto António José Vaz Velho, que foi, além de um digno militar, engenheiro e heraldista, para além de presidente da Câmara após o triunfo do liberalismo.

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Sebastião Martins Mestre, o único conquistador do Forte de São João da Barra

O Dia 13 de Junho de 1808, para além de ser o dia de Santo António, marca o dia que a história registou como a única ocasião que o Forte de São João da Barra foi tomado. Não por uma força invasora proveniente do mar, mas por paisanos da própria freguesia da Conceição, liderados por um capitão português que estava afastado do activo por actividades comerciais em Gibraltar, onde se tinha casado e constituído família. O seu nome ? Sebastião Martins Mestre.

Regressado de Gibraltar com a esposa e a filha criança, pouco tempo após a chegada das forças da primeira invasão francesa de Junot ao Algarve em Novembro de 1807, quiçá para se por ao pleno da situação em que se encontravam as suas duas propriedades rurais na freguesia da Conceição, Martins Mestre não terá ficado agradado de ver franceses a tomarem conta da administração e a cobrar impostos sobre todas as actividades primárias, de tal forma que, com a ajuda de “paisanos” e armamento quiçá disponibilizado pela Marinha Real Britânica, tomou o Forte que vigiava a principal entrada marítima à então capital do Reino do Algarve.

Conhecemos estes factos pela carta em que mais tarde o Governador do Reino do Algarve D. Francisco de Meneses relata-os ao príncipe regente D. João, então exilado no Brasil.

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